{"id":2571,"date":"2016-08-21T22:55:13","date_gmt":"2016-08-21T22:55:13","guid":{"rendered":"http:\/\/revistacentro.org\/?page_id=2571"},"modified":"2016-08-22T18:52:26","modified_gmt":"2016-08-22T18:52:26","slug":"isabellestengers","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/revistacentro.org\/index.php\/isabellestengers\/","title":{"rendered":"NO TEMPO DAS CAT\u00c1STROFES"},"content":{"rendered":"<div id=\"index\" class=\"x-section\" style=\"margin: 0px; padding: 0px 0px 45px;  background-color: #ffffff;\" ><div id=\"\" class=\"x-container max width\" style=\"margin: 0px auto; padding: 0px; \" ><div  class=\"x-column x-sm x-1-2\" style=\"padding: 0px; \" ><hr  class=\"x-gap\" style=\"margin: 55px 0 0 0;\"><div id=\"\" class=\"x-text none\" style=\"\" ><h6><span style=\"color: #808080;\"><span style=\"color: #000000;\">POR\u00a0<span style=\"color: #808080;\">Isabelle Stengers<\/span><\/span><\/span><\/h6>\n<h6>FOTO\u00a0<span style=\"color: #808080;\">CIRO MIGUEL<\/span><\/h6>\n<\/div><hr  class=\"x-gap\" style=\"margin: 5px 0 0 0;\"><div id=\"\" class=\"x-text none\" style=\"\" ><h1><span style=\"color: #000000;\">NO TEMPO DAS CAT\u00c1STROFES<\/span><\/h1>\n<\/div><div id=\"\" class=\"x-text none\" style=\"\" ><h3><span style=\"color: #808080;\">Cap\u00edtulo do livro de Isabelle Stengers sobre Gaia<\/span><\/h3>\n<\/div><hr  class=\"x-gap\" style=\"margin: 55px 0 0 0;\"><\/div><div  class=\"x-column x-sm x-1-2\" style=\"padding: 0px; \" >&nbsp;<\/div><\/div><\/div><div id=\"x-section-2\" class=\"x-section\" style=\"margin: 0px; padding: 45px 0px; width: 100%; padding: 0px 0px 0px 0px !important; background-color: transparent;\" ><div id=\"\" class=\"x-container\" style=\"margin: 0px auto; padding: 0px; width: 100%;\" ><div  class=\"x-column x-sm x-1-1\" style=\"padding: 0px; \" ><img  class=\"x-img x-img-none\" style=\"width: 100%; padding: 0px 0px 0px 0px !important;\" src=\"https:\/\/revistacentro.org\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/12351408_10153727739818959_2131025645_oab.jpg\" ><\/div><\/div><\/div><div id=\"index\" class=\"x-section\" style=\"margin: 0px; padding: 0px 0px 45px;  background-color: #ffffff;\" ><div id=\"\" class=\"x-container max width\" style=\"margin: 0px auto; padding: 0px; \" ><div  class=\"x-column x-sm x-1-2\" style=\"padding: 0px 0% 0px 0; \" ><hr  class=\"x-gap\" style=\"margin: 55px 0 0 0;\"><div id=\"\" class=\"x-text none\" style=\"\" ><p style=\"color: #000;\">Nomear Gaia e caracterizar como intrus\u00e3o os desastres que se anunciam, \u00e9 crucial salientar, depende de uma opera\u00e7\u00e3o pragm\u00e1tica. Nomear n\u00e3o \u00e9 dizer a verdade, e sim atribuir \u00e0quilo que se nomeia o poder de nos fazer sentir e pensar no que o nome suscita. No caso presente, trata-se de resistir \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de reduzir a um simples \u201cproblema\u201d o que constitui acontecimento, o que nos atormenta. Mas tamb\u00e9m de fazer existir a diferen\u00e7a entre a quest\u00e3o imposta e a resposta a ser criada. Nomear Gaia como \u201ca que faz intrus\u00e3o\u201d \u00e9 tamb\u00e9m caracteriz\u00e1-la como cega aos danos que provoca, \u00e0 maneira de tudo o que \u00e9 intrusivo. Por isso a resposta a ser criada n\u00e3o \u00e9 uma \u201cresposta \u00e0 Gaia\u201d, e sim uma resposta tanto ao que provocou sua intrus\u00e3o quanto \u00e0s consequ\u00eancias dessa intrus\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"color: #000;\">Gaia n\u00e3o \u00e9, neste ensaio, portanto, nem a Terra \u201cconcreta\u201d, nem tampouco aquela que \u00e9 nomeada e invocada quando se trata de afirmar e fazer sentir nossa conex\u00e3o com esta Terra, de suscitar um sentido de pertencimento l\u00e1 onde predominou a separa\u00e7\u00e3o e de extrair desse pertencimento recursos de vida, de luta e de pensamento <a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. Trata-se de pensar aqui a intrus\u00e3o, e n\u00e3o o pertencimento.<\/p>\n<p style=\"color: #000;\">Entretanto, pode-se objetar, por que ent\u00e3o recorrer a um nome que pode se prestar a mal-entendidos? Por que, um amigo me prop\u00f4s, n\u00e3o nomear isso que faz intrus\u00e3o de Urano ou Cronos, os terr\u00edveis filhos da Gaia mitol\u00f3gica? A obje\u00e7\u00e3o deve ser entendida: se nomear \u00e9 operar, e n\u00e3o definir \u2014 ou seja, se apropriar \u2014, o nome n\u00e3o poderia ser arbitr\u00e1rio. No caso presente, sei que a escolha deste nome, Gaia, \u00e9 um risco, mas aceito o risco, pois para mim se trata tamb\u00e9m de fazer sentir e pensar aqueles e aquelas que poderiam ficar escandalizados com a ideia de uma Gaia cega e indiferente. Quero conservar a mem\u00f3ria de que este nome, Gaia, estava vinculado em primeiro lugar, no s\u00e9culo XX, a uma proposi\u00e7\u00e3o de origem cient\u00edfica. Ou seja, quero transmitir a necessidade de resistir \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de uma oposi\u00e7\u00e3o brutal entre as ci\u00eancias e os saberes chamados de \u201cn\u00e3o cient\u00edficos\u201d, cuja articula\u00e7\u00e3o ser\u00e1 necess\u00e1ria se tivermos de aprender como responder ao que j\u00e1 come\u00e7ou.<\/p>\n<p style=\"color: #000;\">De fato, o que chamo de Gaia foi assim batizado por James Lovelock e Lynn Margulis no in\u00edcio dos anos 1970. Eles incorporavam pesquisas que contribuem para esclarecer o denso conjunto de rela\u00e7\u00f5es, articulando o que as disciplinas cient\u00edficas tinham o h\u00e1bito de tratar separadamente: os seres vivos, os oceanos, a atmosfera, o clima, os solos mais ou menos f\u00e9rteis. Dar um nome, Gaia, a esse agenciamento de rela\u00e7\u00f5es, era insistir sobre duas consequ\u00eancias dessas pesquisas. Aquilo de que dependemos e que foi com frequ\u00eancia definido como \u201cdado\u201d, o enquadramento globalmente est\u00e1vel de nossas hist\u00f3rias e de nossos c\u00e1lculos, \u00e9 produto de uma hist\u00f3ria de coevolu\u00e7\u00e3o, cujos primeiros artes\u00e3os e verdadeiros autores permanentes foram as in\u00fameras popula\u00e7\u00f5es de micro-organismos. E Gaia, \u201cplaneta vivo\u201d, deve ser reconhecida como um \u201cser\u201d, e n\u00e3o assimilada a uma soma de processos, no mesmo sentido em que reconhecemos que um rato, por exemplo, \u00e9 um ser: ela \u00e9 dotada n\u00e3o apenas de uma hist\u00f3ria, mas tamb\u00e9m de um regime de atividades pr\u00f3prio, oriundo das m\u00faltiplas e emaranhadas maneiras pelas quais os processos que a constituem s\u00e3o articulados uns aos outros, a varia\u00e7\u00e3o de um tendo m\u00faltiplas repercuss\u00f5es que afetam os outros. Interrogar Gaia \u00e9, ent\u00e3o, interrogar algo coeso, e as quest\u00f5es dirigidas a um processo particular podem p\u00f4r em jogo uma resposta, \u00e0s vezes inesperada, do conjunto.<\/p>\n<p style=\"color: #000;\">Talvez Lovelock tenha ido longe demais ao afirmar que essa articula\u00e7\u00e3o assegurava o tipo de estabilidade que se atribui a um organismo vivo saud\u00e1vel, as repercuss\u00f5es entre processos tendo ent\u00e3o, como efeito, diminuir as consequ\u00eancias de uma varia\u00e7\u00e3o. Gaia parecia assim ser uma boa m\u00e3e, provedora, cuja sa\u00fade devia ser protegida. Hoje nossa compreens\u00e3o da maneira pela qual Gaia \u201cse mant\u00e9m coesa\u201d \u00e9 bem menos tranquilizadora. A quest\u00e3o colocada pelo aumento da concentra\u00e7\u00e3o dos gases chamados \u201cde efeito estufa\u201d na atmosfera suscita um conjunto de respostas em cascata que os cientistas est\u00e3o come\u00e7ando a identificar.<\/p>\n<p style=\"color: #000;\">Gaia \u00e9 agora, mais do que nunca, a bem nomeada, pois se no passado foi honrada, foi por ser temida, aquela a quem os camponeses se dirigiam pois sabiam que os homens dependem de algo maior do que eles, de algo que os tolere, mas de cuja toler\u00e2ncia n\u00e3o se deve abusar. Ela era anterior ao culto do amor materno que tudo perdoa. Uma m\u00e3e, talvez, mas irasc\u00edvel, que n\u00e3o se deve ofender. E ela \u00e9 anterior \u00e0 \u00e9poca em que os gregos conferem a seus deuses o sentido do justo e do injusto, anterior \u00e0 \u00e9poca em que eles lhes atribuem um interesse particular por seus pr\u00f3prios destinos. Tratava-se, antes, de ter cuidado para n\u00e3o ofend\u00ea-los, para n\u00e3o abusar de sua toler\u00e2ncia.<\/p>\n<p style=\"color: #000;\">Imprudentemente, uma margem de toler\u00e2ncia foi de fato ultrapassada, \u00e9 o que os modelos dizem cada vez com mais precis\u00e3o, \u00e9 o que os sat\u00e9lites observam e \u00e9 o que os Inuit sabem. E a resposta de Gaia seria possivelmente desmesurada em rela\u00e7\u00e3o ao que n\u00f3s fizemos, um pouco como um dar de ombros provocado pelo leve toque de um mosquito. Gaia \u00e9 suscet\u00edvel, e por isso deve ser nomeada como um ser. J\u00e1 n\u00e3o estamos lidando com uma natureza selvagem e amea\u00e7adora, nem com uma natureza fr\u00e1gil, que deve ser protegida, nem com uma natureza que pode ser explorada \u00e0 vontade. A hip\u00f3tese \u00e9 nova. Gaia, a que faz intrus\u00e3o, n\u00e3o nos pede nada, sequer uma resposta para a quest\u00e3o que imp\u00f5e. Ofendida <a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, Gaia \u00e9 indiferente \u00e0 pergunta \u201cquem \u00e9 respons\u00e1vel?\u201d e n\u00e3o age como justiceira \u2014 parece que as primeiras regi\u00f5es da Terra a serem atingidas ser\u00e3o as mais pobres do planeta, sem falar de todos esses viventes que n\u00e3o t\u00eam nada a ver com a quest\u00e3o. O que n\u00e3o justifica, de modo algum, uma indiferen\u00e7a qualquer em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s amea\u00e7as que pesam sobre os viventes que habitam conosco essa Terra. Simplesmente, n\u00e3o \u00e9 da conta de Gaia.<\/p>\n<p style=\"color: #000;\">O fato de Gaia n\u00e3o nos pedir nada traduz a especificidade do que est\u00e1 ocorrendo, daquilo em que precisamos pensar, o acontecimento de uma intrus\u00e3o unilateral, que pergunta sem interesse pela resposta. Pois a pr\u00f3pria Gaia n\u00e3o est\u00e1 amea\u00e7ada, diferentemente das in\u00fameras esp\u00e9cies vivas que ser\u00e3o varridas pela anunciada mudan\u00e7a de seu meio, com uma rapidez sem precedente. Os in\u00fameros micro-organismos continuar\u00e3o, com efeito, a participar de seu regime de exist\u00eancia, o de um \u201cplaneta vivo\u201d. E \u00e9 precisamente pelo fato de n\u00e3o estar amea\u00e7ada que ela faz com que as vers\u00f5es \u00e9picas da hist\u00f3ria humana pare\u00e7am caducas, quando o Homem, em p\u00e9 sobre as duas patas e aprendendo a decifrar as \u201cleis da natureza\u201d, compreendeu que era mestre de seu destino, livre de qualquer transcend\u00eancia. Gaia \u00e9 o nome de uma forma in\u00e9dita, ou ent\u00e3o esquecida, de transcend\u00eancia: uma transcend\u00eancia desprovida das altas qualidades que permitiriam invoc\u00e1-la como \u00e1rbitro, garantia ou recurso; um suscet\u00edvel agenciamento de for\u00e7as indiferentes aos nossos pensamentos e aos nossos projetos.<\/p>\n<p style=\"color: #000;\">A intrus\u00e3o do tipo de transcend\u00eancia que nomeio Gaia instaura, no seio de nossas vidas, um desconhecido maior, e que veio para ficar. E, ali\u00e1s, talvez seja isto o mais dif\u00edcil de conceber: n\u00e3o existe um futuro previs\u00edvel em que ela nos restituir\u00e1 a liberdade de ignor\u00e1-la; n\u00e3o se trata de \u201cum momento ruim que vai passar\u201d, seguido de uma forma qualquer de happy end no sentido pobre de \u201cproblema resolvido\u201d. N\u00e3o seremos mais autorizados a esquec\u00ea-la. Teremos que responder incessantemente pelo que fazemos diante de um ser implac\u00e1vel, surdo \u00e0s nossas justificativas. Um ser que n\u00e3o tem porta-voz, ou, antes, cujos porta-vozes est\u00e3o expostos a um devir monstruoso. Conhecemos a velha ladainha do \u201csomos numerosos demais, \u00e9 esse o problema\u201d, que vem em geral de especialistas bem alimentados, habitu\u00e9s dos avi\u00f5es, e cuja morte prematura permitiria, com certeza, uma economia energ\u00e9tica invej\u00e1vel. Mas, se ouvirmos Lovelock, hoje profeta do desastre, para acalmar Gaia e viver razoavelmente bem em harmonia com ela, seria preciso reduzir a popula\u00e7\u00e3o humana para uns 500 milh\u00f5es de pessoas. Os c\u00e1lculos ditos racionais, que chegam a concluir que a \u00fanica solu\u00e7\u00e3o \u00e9 a erradica\u00e7\u00e3o da grande maioria dos homens daqui at\u00e9 o fim do s\u00e9culo, n\u00e3o conseguem disfar\u00e7ar o del\u00edrio de uma abstra\u00e7\u00e3o assassina e obscena. Gaia n\u00e3o pede uma erradica\u00e7\u00e3o dessas. Ela n\u00e3o pede nada.<\/p>\n<p style=\"color: #000;\">Nomear \u201cGaia\u201d \u2014 ou seja, associar um agenciamento de processos materiais que n\u00e3o pede nem para ser protegidonem para ser amado, e n\u00e3o se comove com a manifesta\u00e7\u00e3o p\u00fablica de nosso remorso, \u00e0 intrus\u00e3o em nossa hist\u00f3ria de uma forma de transcend\u00eancia \u2014 n\u00e3o deveria desagradar especialmente a maioria dos cientistas. Eles pr\u00f3prios est\u00e3o acostumados a dar nome a algo que lhes faz pensar e imaginar \u2014 o que \u00e9 o pr\u00f3prio sentido da transcend\u00eancia que associo \u00e0 Gaia. Os \u00fanicos que certamente v\u00e3o vociferar contra a irracionalidade s\u00e3o aqueles que se colocam na posi\u00e7\u00e3o de \u201cguardi\u00f5es da raz\u00e3o e do progresso\u201d. Esses denunciar\u00e3o uma regress\u00e3o assustadora que nos faria esquecer a \u201cheran\u00e7a das Luzes\u201d, a grande narrativa da emancipa\u00e7\u00e3o humana que se desvencilha do jugo das transcen d\u00eancias. Seu papel j\u00e1 foi designado. Depois de terem contribu\u00eddo para o ceticismo diante dos modelos clim\u00e1ticos (pensemos em Claude All\u00e8gre), eles v\u00e3o usar toda a sua energia para lembrar \u00e0 opini\u00e3o p\u00fablica sempre cr\u00e9dula que ela tem de seguir em frente e acreditar no destino do Homem e em sua capacidade de triunfar sobre todos os \u201cdesafios\u201d. O que implica, de modo bem concreto, o dever de acreditar na ci\u00eancia, esse c\u00e9rebro da Humanidade, e na t\u00e9cnica, a servi\u00e7o do progresso. Provocar suas vocifera\u00e7\u00f5es n\u00e3o me diverte nem me assusta.<\/p>\n<p style=\"color: #000;\">A opera\u00e7\u00e3o de dar um nome n\u00e3o \u00e9, portanto, de modo algum anticient\u00edfica. Em compensa\u00e7\u00e3o, ela pode fazer com que os cientistas pensem, pode impedi-los de se apropriar da quest\u00e3o imposta pela intrus\u00e3o de Gaia. Os climatologistas, glaciologistas, qu\u00edmicos e outros fizeram seu trabalho e conseguiram tamb\u00e9m fazer soar o alarme apesar de todas as tentativas de sufocamento, conseguiram impor \u201cuma verdade inconveniente\u201d apesar das acusa\u00e7\u00f5es de que foram objeto: de ter misturado ci\u00eancia e pol\u00edtica, ou ent\u00e3o de ter inveja do sucesso de seus colegas cujos trabalhos contribuem para mudar o mundo enquanto eles se limitam a descrev\u00ea-lo, ou ainda de apresentar como \u201cprovado\u201d o que \u00e9 apenas hipot\u00e9tico. Eles souberam resistir, pois sabiam que o tempo contava e que n\u00e3o eram eles, mas aquilo sobre o que eles se debru\u00e7avam que de fato misturava quest\u00f5es cient\u00edficas e quest\u00f5es pol\u00edticas \u2014 e, notadamente, a quest\u00e3o do que estava substituindo a pol\u00edtica, a nova ordem econ\u00f4mica prestes a impor seus imperativos ao planeta inteiro. Nomear Gaia \u00e9 ajud\u00e1-los a resistir a uma nova amea\u00e7a que desta vez realmente fabricaria a pior das confus\u00f5es entre ci\u00eancia e pol\u00edtica: deixar que se pergunte aos cientistas como responder, que se confie neles para definir o que conv\u00e9m fazer.<\/p>\n<p style=\"color: #000;\">\u00c9 o que, ali\u00e1s, est\u00e1 acontecendo, mas com outros tipos de \u201ccientistas\u201d. A partir de hoje s\u00e3o os economistas que est\u00e3o empenhados, e de um modo que garante que, como muitos efeitos \u201cn\u00e3o desejados\u201d, a quest\u00e3o clim\u00e1tica ser\u00e1 considerada sob o \u00e2ngulo das estrat\u00e9gias plaus\u00edveis\u201d, ou seja, suscet\u00edveis de fazerem dela uma nova fonte de lucro. Ainda que se resigne, em nome das leis da economia \u2014 que s\u00e3o duras, mas, dir\u00e3o eles, s\u00e3o leis \u2014, com uma New Orleans planet\u00e1ria. Ainda que as zonas do planeta definidas como rent\u00e1veis devam, em qualquer escala, do bairro ao continente, se defender por todos os meios necess\u00e1rios contra a massa daqueles que ser\u00e3o exclu\u00eddos, sem d\u00favida, com o famoso \u201cn\u00e3o podemos acolher toda a mis\u00e9ria do mundo\u201d. Ainda que, em suma, a sucess\u00e3o dos \u201cn\u00e3o tem jeito, \u00e9 preciso\u201d instale, plena e abertamente, a barb\u00e1rie que j\u00e1 est\u00e1 penetrando em nossos mundos.<\/p>\n<p style=\"color: #000;\">Os economistas e outros candidatos \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de respostas globais fundadas na \u201cci\u00eancia\u201d s\u00f3 existem para mim como poder de prejudicar. A autoridade deles s\u00f3 existe na medida em que o mundo, nosso mundo, permane\u00e7a como est\u00e1 \u2014 ou seja, fadado \u00e0 barb\u00e1rie. Suas \u201cleis\u201d sup\u00f5em, antes de tudo, que \u201cn\u00f3s\u201d fiquemos em nosso lugar, desempenhemos os pap\u00e9is que nos s\u00e3o atribu\u00eddos, tenhamos o ego\u00edsmo cego e a incapacidade cong\u00eanita de pensar e de cooperar, o que faz da guerra econ\u00f4mica generalizada o \u00fanico horizonte conceb\u00edvel. Seria, portanto, perfeitamente in\u00fatil \u201cnomear Gaia\u201d se se tratasse apenas de combat\u00ea-los. Mas trata-se de combater o que lhes d\u00e1 autoridade. Aquilo contra o que se ergueu o grito: \u201cOutro mundo \u00e9 poss\u00edvel!\u201d.<\/p>\n<p style=\"color: #000;\">Esse grito n\u00e3o perdeu nada, realmente nada, de sua atualidade. Pois aquilo contra o que ele se ergueu, o capitalismo \u2014 o de Marx, claro, n\u00e3o o dos economistas americanos \u2014, j\u00e1 est\u00e1 empenhado em elaborar suas pr\u00f3prias respostas \u00e0 quest\u00e3o que se imp\u00f5e a n\u00f3s, respostas que nos levam direto para a barb\u00e1rie. Assim, a luta ganha uma urg\u00eancia in\u00e9dita, mas aqueles e aquelas que est\u00e3o engajados nessa luta devem tamb\u00e9m enfrentar uma prova realmente desnecess\u00e1ria, de que se pode ser tentado a abstrair em nome da pr\u00f3pria urg\u00eancia. Nomear Gaia \u00e9 nomear a necessidade de resistir a essa tenta\u00e7\u00e3o, a necessidade de pensar a partir desta prova: n\u00e3o temos escolha, pois ela n\u00e3o vai esperar. Que n\u00e3o me venham perguntar que \u201coutro mundo\u201d ser\u00e1 poss\u00edvel, que \u201coutro mundo\u201d seremos capazes de construir com ela. N\u00e3o cabe a n\u00f3s a resposta; ela cabe a um processo de cria\u00e7\u00e3o cuja enorme dificuldade seria insensato e perigoso subestimar, mas que seria um suic\u00eddio considerar imposs\u00edvel. N\u00e3o haver\u00e1 resposta se n\u00e3o aprendermos a articular luta e engajamento nesse processo de cria\u00e7\u00e3o, por mais hesitante e balbuciante que ele seja.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"color: #000;\">(Trecho de:\u00a0Stengers,\u00a0Isabelle. No Tempo das Cat\u00e1strofes. S\u00e3o Paulo: Cosac Naify. Cole\u00e7\u00e3o EXIT. 2015)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>NOTES:<br \/>\n<a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Em La Sorcellerie capitaliste, Philippe Pignarre e eu afirmamos o sentido pol\u00edtico desses rituais.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Ofendida, mas n\u00e3o vingativa, pois evocar uma Gaia vingativa \u00e9 atribuir-lhe n\u00e3o apenas uma mem\u00f3ria, mas tamb\u00e9m uma interpreta\u00e7\u00e3o do que acontece em termos de intencionalidade e de responsabilidade. Pelo mesmo motivo, falar, como James Lovelock hoje, da \u201cdesforra\u201d de Gaia \u00e9 mobilizar um tipo de psicologia que n\u00e3o parece pertinente: vai-se \u00e0 desforra contra algu\u00e9m quando a quest\u00e3o da ofensa \u00e9 da ordem da constata\u00e7\u00e3o. Dir\u00e3o, por exemplo: \u201cParece que esse gesto a ofendeu, eu me pergunto por qu\u00ea\u201d. Correlativamente, n\u00e3o se luta contra Gaia. At\u00e9 mesmo falar de uma luta contra o aquecimento global \u00e9 inapropriado \u2014 se \u00e9 importante lutar, a luta \u00e9 contra o que provocou Gaia, n\u00e3o contra sua resposta.<\/p>\n<\/div><hr  class=\"x-gap\" style=\"margin: 50px 0 0 0;\"><div id=\"\" class=\"x-text\" style=\"\" ><h6>Isabelle Stengers,<\/h6>\n<p>Fil\u00f3sofa belga, autora do livro No Tempo das Cat\u00e1strofes<\/p>\n<\/div><hr  class=\"x-gap\" style=\"margin: 500px 0 0 0;\"><\/div><div  class=\"x-column x-sm x-1-2\" style=\"padding: 0px; \" >&nbsp;<\/div><\/div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"template-blank-4.php","meta":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revistacentro.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/2571"}],"collection":[{"href":"https:\/\/revistacentro.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/revistacentro.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacentro.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacentro.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2571"}],"version-history":[{"count":10,"href":"https:\/\/revistacentro.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/2571\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2589,"href":"https:\/\/revistacentro.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/2571\/revisions\/2589"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revistacentro.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2571"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}