{"id":1329,"date":"2015-12-02T22:10:06","date_gmt":"2015-12-02T22:10:06","guid":{"rendered":"http:\/\/revistacentro.org\/?page_id=1329"},"modified":"2015-12-16T13:30:47","modified_gmt":"2015-12-16T13:30:47","slug":"nuno","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/revistacentro.org\/index.php\/nuno\/","title":{"rendered":"A ORIGEM DOS OBJETOS &#8211; Notas sobre as D\u00e1divas de Nuno Ramos"},"content":{"rendered":"<div id=\"index\" class=\"x-section\" style=\"margin: 0px; padding: 0px 0px 45px;  background-color: #ffffff;\" ><div id=\"\" class=\"x-container max width\" style=\"margin: 0px auto; padding: 0px; \" ><div  class=\"x-column x-sm x-1-1\" style=\"padding: 0px; \" ><hr  class=\"x-gap\" style=\"margin: 60px 0 0 0;\"><div id=\"\" class=\"x-text none\" style=\"\" ><h6>POR <span style=\"color: #808080;\">GUILHERME GIUFRIDA<\/span><\/h6>\n<\/div><hr  class=\"x-gap\" style=\"margin: 6px 0 0 0;\"><div id=\"\" class=\"x-text none\" style=\"\" ><h1><span style=\"color: #000000;\">A ORIGEM DOS OBJETOS<\/span><\/h1>\n<\/div><div id=\"\" class=\"x-text none\" style=\"\" ><h3><span style=\"color: #808080;\">Notas sobre as <em>D\u00e1divas<\/em> de Nuno Ramos<\/span><\/h3>\n<\/div><hr  class=\"x-gap\" style=\"margin: 10px 0 0 0;\"><\/div><\/div><div id=\"\" class=\"x-container max width\" style=\"margin: 0px auto; padding: 0px; \" ><div  class=\"x-column x-sm x-1-1\" style=\"padding: 0px; \" ><hr  class=\"x-gap\" style=\"margin: 20px 0 0 0;\"><div  class=\"x-columnize\" >\n<p>Durante a exposi\u00e7\u00e3o <em>Houyhnhnms<\/em>, de Nuno Ramos, na Esta\u00e7\u00e3o Pinacoteca\u00a0(ago-nov 2015), muito se escreveu sobre as telas in\u00e9ditas de grande dimens\u00e3o e espessura. Todavia, pouco se comentou sobre as v\u00eddeo instala\u00e7\u00f5es \u201cCavaloporpierr\u00f4\u201d e \u201cCasaporarroz\u201d, apresentadas pela primeira vez em S\u00e3o Paulo. Esp\u00e9cies de gangorras fixas, suspensas sobre o sal\u00e3o expositivo, balizavam, respectivamente, uma caixa de CD-System que emitia ru\u00eddos de um samba-can\u00e7\u00e3o e um cavalo de madeira, desses de parque de divers\u00e3o antigo; a outra, equilibrava uma parte cerrada de boleia de um caminh\u00e3o, sustentando um monte de arroz, contraposta por um gaveteiro de madeira de lei. Pareciam resqu\u00edcios de um evento que passara por ali, refeitos sob o equil\u00edbrio meticuloso dos pesos entre cada par de objetos.<\/p>\n<p>Os v\u00eddeos, na mesma sala, contam, em \u201cCavaloporpierr\u00f4\u201d<em>,<\/em> a hist\u00f3ria de um pierr\u00f4 distra\u00eddo na cidade grande. Depois de percorrer parques de divers\u00e3o vazios e montar em um carrossel, prev\u00ea perigo e tenta esconder-se, mas \u00e9 capturado por sequestradores de moto. Dentro do cativeiro, um cavalo, at\u00e9 ent\u00e3o preso, passa por dentro do sala onde est\u00e1 o pierr\u00f4. A c\u00e2mera percorre em pan o desespero de um e a libera\u00e7\u00e3o do outro, que parte em galope pelas ruas onde h\u00e1 pouco vagava o pierr\u00f4. O v\u00eddeo de \u201cCasaporarroz\u201d come\u00e7a em um cart\u00f3rio no qual se firma a venda de uma casa. O burocrata explicita os termos da lei de transfer\u00eancia das propriedades. A compradora e o vendedor parecem satisfeitos, e trocam uma chave por um punhado de arroz. J\u00e1 na casa rec\u00e9m adquirida, a personagem assiste ao antigo propriet\u00e1rio carregar sua mob\u00edlia na boleia de um caminh\u00e3o. Seguimos o caminho da mudan\u00e7a, levada para outra localidade; no meio de uma mata, os m\u00f3veis s\u00e3o dispostos sobre a v\u00e1rzea de um rio. Enquanto isso, na casa rec\u00e9m adquirida, a propriet\u00e1ria preenche os c\u00f4modos com arroz, que surgem do seu bolso e aos poucos encobrem-na. Ela despe-se e, nua, deita.<\/p>\n<p>Na sala seguinte da exposi\u00e7\u00e3o h\u00e1 o outro elemento da instala\u00e7\u00e3o: som, cavalo, boleia, mob\u00edlia e as hastes que os mantinham em suspens\u00e3o e equil\u00edbrio aparecem replicados com outros materiais, uma c\u00f3pia oca de cada uma das esculturas feitas de lat\u00e3o, tombadas sobre o ch\u00e3o. Em torno dos objetos circula um l\u00edquido viscoso, bombeado por dois tubos transparente nos quais se l\u00ea: \u201cglicose\u201d e \u201cmorfina\u201d.<\/p>\n<\/div><hr  class=\"x-gap\" style=\"margin: 60px 0 0 0;\"><\/div><\/div><\/div><div id=\"x-section-2\" class=\"x-section\" style=\"margin: 0px; padding: 0px;  background-color: transparent;\" ><div id=\"\" class=\"x-container\" style=\"margin: 0px auto; padding: 0px; width: 100%;\" ><div  class=\"x-column x-sm x-1-1\" style=\"padding: 0px; \" ><img  class=\"x-img x-img-none\" style=\"width: 100%; padding: 0px 0px 0px 0px !important;\" src=\"https:\/\/revistacentro.org\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/Imagem1a.jpg\" ><\/div><\/div><\/div><div id=\"index\" class=\"x-section\" style=\"margin: 0px; padding: 0px 0px 45px;  background-color: #ffffff;\" ><div id=\"\" class=\"x-container max width\" style=\"margin: 0px auto; padding: 0px; \" ><div  class=\"x-column x-sm x-1-1\" style=\"padding: 0px; \" ><hr  class=\"x-gap\" style=\"margin: 60px 0 0 0;\"><\/div><\/div><div id=\"\" class=\"x-container max width\" style=\"margin: 0px auto; padding: 0px; \" ><div  class=\"x-column x-sm x-1-1\" style=\"padding: 0px; \" ><div id=\"\" class=\"x-text none\" style=\"\" ><h3>Inten\u00e7\u00e3o <\/h3>\n<\/div><hr  class=\"x-gap\" style=\"margin: 20px 0 0 0;\"><div  class=\"x-columnize\" >\n<p>Esses trabalhos decorrem da exposi\u00e7\u00e3o <em>Ensaio sobre a D\u00e1diva<\/em>, montada na Funda\u00e7\u00e3o Iber\u00ea Camargo de Porto Alegre em 2013. O nome \u00e9 uma refer\u00eancia direta ao texto do antrop\u00f3logo Marcel Mauss, publicado no in\u00edcio dos anos 1920<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. Em uma entrevista que fizemos em seu atelier enquanto realizava as pinturas, Nuno disse que o texto de Mauss lhe traz muita inspira\u00e7\u00e3o, assim como outros da antropologia (al\u00e9m de Mauss, mostra interesse e leitura de Claude L\u00e9vi-Strauss, Michel Foucault e Marshall Sahlins). \u201c\u00c9 um assunto extremamente excitante pra mim, mais do que filosofia, sobretudo pelo pensamento cosmog\u00f4nico, sobre a origens das coisas\u201d.<\/p>\n<p>No caso especial do texto \u201cEnsaio sobre a D\u00e1diva\u201d, Nuno diz guardar a ideia de uma \u201ctroca maluca\u201d. Mauss discute sociedades em que a troca n\u00e3o se daria sob a forma-mercadoria, mas sim sob a forma-d\u00e1diva, em que partes das pessoas seguiriam ligadas \u00e0s coisas, e, por isso, n\u00e3o seria poss\u00edvel distinguir os objetos das rela\u00e7\u00f5es. Inclui certas sobreviv\u00eancias desse modo de entender as trocas nas sociedades ocidentais, como a obriga\u00e7\u00e3o de dar, receber e retribuir; o gasto das economias acumuladas em comemora\u00e7\u00f5es festivas; e a afetividade que regula algumas decis\u00f5es econ\u00f4micas.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 35px; padding-right: 35px;\"><em>Eu estava querendo pensar trocas onde n\u00e3o fosse poss\u00edvel a equival\u00eancia, que \u00e9 a maldi\u00e7\u00e3o da mercadoria, trocas sem essa forma de valor. Se eu me lembro da leitura do Mauss, ele diz que a distin\u00e7\u00e3o entre pessoas e coisas ainda n\u00e3o estava bem montada, precisaria que os romanos a fizessem. Ent\u00e3o, \u00e9 como se o objeto dadivoso estivesse impregnado da pessoa. Voc\u00ea receber aquilo \u00e9 o mesmo que voc\u00ea ser possu\u00eddo por ela. Esse objeto impregnado por uma pessoa \u00e9 um objeto est\u00e9tico, pelo menos da Renascen\u00e7a em diante, porque tem um autor ali que est\u00e1 presente. Voc\u00ea n\u00e3o dissocia muito aquele objeto de um autor, nisso ele \u00e9 diferente de qualquer mercadoria que \u00e9 an\u00f4nima. No caso do objeto de arte, esse algu\u00e9m, que \u00e9 autor dela, est\u00e1 l\u00e1 o tempo todo, mas, ao inv\u00e9s de possuir, \u00e9 visto benignamente. Por isso, eu acho que o objeto de arte pode ser visto como dadivoso.<\/em><\/p>\n<p>Em \u201cCasaporarroz\u201d estamos diante de uma troca regida por motiva\u00e7\u00f5es outras, para al\u00e9m da l\u00f3gica da mercadoria, organizada pela valoriza\u00e7\u00e3o dos capitais e a separa\u00e7\u00e3o entre vontades e raz\u00e3o, apesar de, ironicamente, o tabeli\u00e3o recitar termos jur\u00eddicos. O imponder\u00e1vel do ponto de vista do valor de troca \u00e9 intercambiado no terreno da fic\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o compartilha a no\u00e7\u00e3o de mercadoria, mas sim a da d\u00e1diva \u2013 que \u00e9 distinta da caridade, pelas obriga\u00e7\u00f5es que acarreta. \u201cCavaloporpierr\u00f4\u201d \u00e9 mais opaco, mostra a simples substitui\u00e7\u00e3o de um personagem pelo outro, explicitada no movimento de c\u00e2mera no momento da troca. Os dois nem ao menos se olham, apenas mudam de lugar: o pierr\u00f4 \u00e9 aprisionado no cativeiro e o cavalo solto na cidade. Da troca, s\u00f3 restam os fragmentos de objetos presentes na galeria expositiva.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 35px; padding-right: 35px;\"><em>\u00c9 po\u00e9tico, n\u00e3o vai muito al\u00e9m de eu achar interessante trocar um saco de arroz por uma casa, por exemplo. No meu caderno tem outras ideias. A\u00ed eu vou desenvolvendo narrativamente. Como seria? A\u00ed vem a hora que a hist\u00f3ria d\u00e1 uma escultura, a\u00ed vou escolhendo por crit\u00e9rios como se o material pode ser fundido, e, por \u00faltimo, se vou ter dinheiro pra fazer essas pe\u00e7as.<\/em><\/p>\n<p>Depois de escutar algumas vezes a grava\u00e7\u00e3o da entrevista com Nuno, percebi minha insist\u00eancia, desde a elabora\u00e7\u00e3o das perguntas, no significado dos itens escolhidos para troca (conflitos entre natureza e cultura, cidade e campo e outras met\u00e1foras). No entanto, uma an\u00e1lise interpretativa a partir dessa dramaturgia \u2013 buscando liga\u00e7\u00f5es causais entre as escolhas de Nuno e o mundo externo a elas \u2013 seria in\u00f3cua para pensar esse trabalho.<\/p>\n<p>Os objetos em <em>Ensaio sobre a D\u00e1diva<\/em> n\u00e3o se explicam por sua rela\u00e7\u00e3o meton\u00edmica com o mundo. S\u00e3o dois pares de entes concretos, mudos, intercambiados em uma coreografia r\u00edgida, sem explica\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica que lhes deem conta para al\u00e9m de colocar equival\u00eancia, a partir do balizamento de peso, itens que at\u00e9 antes desse exerc\u00edcio estavam dispersos no mundo. Esses exerc\u00edcios de criar intencionalmente uma rela\u00e7\u00e3o entre coisas \u2013 cujo resultado se testemunha na exposi\u00e7\u00e3o \u2013 \u00e9 o pr\u00f3prio trabalho do artista.\u00a0 O objeto est\u00e9tico \u00e9 a retribui\u00e7\u00e3o da troca entre coisas diferentes, e que nunca, sob a l\u00f3gica da mercadoria, se imaginou colocar em contato, qu\u00e3o menos troc\u00e1-las.<\/p>\n<\/div><hr  class=\"x-gap\" style=\"margin: 60px 0 0 0;\"><\/div><\/div><\/div><div id=\"x-section-4\" class=\"x-section\" style=\"margin: 0px; padding: 0px;  background-color: transparent;\" ><div id=\"\" class=\"x-container\" style=\"margin: 0px auto; padding: 0px; width: 100%;\" ><div  class=\"x-column x-sm x-1-1\" style=\"padding: 0px; \" ><img  class=\"x-img x-img-none\" style=\"width: 100%; padding: 0px 0px 0px 0px !important;\" src=\"https:\/\/revistacentro.org\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/Imagem2a.jpg\" ><\/div><\/div><\/div><div id=\"index\" class=\"x-section\" style=\"margin: 0px; padding: 0px 0px 45px;  background-color: #ffffff;\" ><div id=\"\" class=\"x-container max width\" style=\"margin: 0px auto; padding: 0px; \" ><div  class=\"x-column x-sm x-1-1\" style=\"padding: 0px; \" ><hr  class=\"x-gap\" style=\"margin: 60px 0 0 0;\"><div id=\"\" class=\"x-text none\" style=\"\" ><h3>Nome <\/h3>\n<\/div><\/div><\/div><div id=\"\" class=\"x-container max width\" style=\"margin: 0px auto; padding: 0px; \" ><div  class=\"x-column x-sm x-1-1\" style=\"padding: 0px; \" ><hr  class=\"x-gap\" style=\"margin: 20px 0 0 0;\"><div  class=\"x-columnize\" >\n<p>Disc\u00edpulo declarado do artista alem\u00e3o Joseph Beuys (1921-86), Nuno pensa seus trabalhos a partir dos aspectos materiais que lhe d\u00e3o forma.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 35px; padding-right: 35px;\"><em>Eu gosto de mat\u00e9ria, a coisa que mais me irrita \u00e9 artista que fala: \u2013 Ah eu quero fazer uma cadeira de vidro. Qual cadeira? Que vidro? Como que junta? Me d\u00e1 nervoso quando n\u00e3o consigo pensar as coisas. E muitas vezes eu n\u00e3o consigo. A minha rela\u00e7\u00e3o com Beuys vem exatamente disso. H\u00e1 nele uma antropologia da escultura, assim como o [Richard] Serra tem uma arqueologia. No Beuys o que est\u00e1 em jogo \u00e9 o conceito antropol\u00f3gico da arte: pra que que serve, qual a origem de voc\u00ea colocar uma coisa para estar no mundo, para se separar do mundo e de voc\u00ea. Nesse sentido, o Beuys \u00e9 importante pra mim. Mas eu sou muito mais leve que ele.<\/em><\/p>\n<p>Marcel Mauss, no subt\u00edtulo do artigo lido por Nuno, afirma escrever sobre a \u201cforma e raz\u00e3o da troca nas sociedades arcaicas\u201d \u2013 a obriga\u00e7\u00e3o que a coisa dada carrega de ser retribu\u00edda n\u00e3o \u00e9 imposta no campo das ideias e da moral simplesmente, mas, e sobretudo, atrav\u00e9s da forma dessa transa\u00e7\u00e3o. \u00c9 necess\u00e1rio observar na troca-d\u00e1diva n\u00e3o apenas os signos, mas como eles se entrela\u00e7am de forma particular nos objetos.<\/p>\n<p>As leituras sobre d\u00e1diva parecem deslocar a preocupa\u00e7\u00e3o de Nuno sobre a materialidade pl\u00e1stica escolhida para envolver os trabalhos. Segundo ele, o texto de Mauss lhe criou a possibilidade de produzir uma obra a partir de \u201ccoisas nome\u00e1veis\u201d. Al\u00e9m do exerc\u00edcio est\u00e9tico de colocar coisas disparatadas em rela\u00e7\u00e3o, interessa ao artista os objetos espec\u00edficos escolhidos para realizar essas trocas: o cavalo imobilizado no fragmento de um brinquedo, o movimento da mudan\u00e7a observado por uma parte cerrada do caminh\u00e3o, o arroz branco a cobrir progressivamente os tacos de madeira da casa, o pierr\u00f4 de quem s\u00f3 sobreviveu uma caixa de som com sussurros da sua m\u00fasica, a mob\u00edlia familiar que permanece im\u00f3vel <em>sobre<\/em> a \u00e1gua.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 35px; padding-right: 35px;\"><em>Botar em rela\u00e7\u00e3o coisas disparatadas, fazer uma fa\u00edsca entre coisas, usar objetos concretos ou coisas nome\u00e1veis. Isso pra mim foi muito importante: ter acesso a um caminh\u00e3o e n\u00e3o \u00e0 mat\u00e9ria de um caminh\u00e3o. Nunca tinha conseguido fazer isso, a n\u00e3o ser pra destruir. Foi a \u00fanica vez que consegui colocar uma coisa do mundo pra dentro das minhas coisas. \u00c9 uma novidade pra mim, e foi a ideia de d\u00e1diva me ofereceu isso. (&#8230;) O que \u00e9 uma c\u00f4moda? O que que \u00e9 isso? Quanto \u00e9 que vale? Quanto pesa? Como que se relaciona com o resto? O quanto disso \u00e9 mat\u00e9ria? O quanto n\u00e3o \u00e9?<\/em><\/p>\n<p>Nos v\u00eddeos de \u201cCasaporarroz\u201d e \u201cCavaloporpierr\u00f4\u201d, os personagens mudam de lugar, migram para espa\u00e7os que n\u00e3o lhes s\u00e3o familiares \u2013 o cavalo no cativeiro, a montanha de arroz na sala, a mob\u00edlia no rio \u2013 mas n\u00e3o mudam de estado, tampouco fundem-se ou alteram-se. O vento passa, move as marolas, e a mob\u00edlia segue completamente im\u00f3vel e firme. Trata-se do limite dado pela materialidade na obra de Nuno, aqui levado \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias: coisas do mundo aparecem por inteiro e permanecem como tal em toda obra, como os m\u00f3veis que jamais afundam (ao contr\u00e1rios de outros trabalhos do artista, como \u201cMar\u00e9 Mob\u00edlia\u201d), refor\u00e7ando o sentido est\u00e9tico promovido pela troca.<\/p>\n<p>Por sua vez, as esculturas da segunda sala parecem vest\u00edgios materiais do pr\u00f3prio exerc\u00edcio est\u00e9tico que o autor realiza nas balan\u00e7as elevadas da primeira.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 35px; padding-right: 35px;\"><em>A r\u00e9plica \u00e9 o cad\u00e1ver das esculturas, como se a forma tivesse viva e pendurada, e l\u00e1 estivesse adormecida por esses l\u00edquidos rodando dentro dela. Conclui como se fosse uma p\u00f3s-troca, a coisa j\u00e1 estabilizada e refeita.<\/em><\/p>\n<p>Depois de restituir a import\u00e2ncia dos objetos, a partir do exerc\u00edcio de relacion\u00e1-los intencionalmente por meio de fic\u00e7\u00f5es e elev\u00e1-los por pedestais, participam de algo como um inc\u00eandio ou um ritual de destrui\u00e7\u00e3o (como o <em>Potlach<\/em> tamb\u00e9m discutido por Mauss no texto<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"> [2]<\/a>), todavia, sobrevivem em simbiose. As r\u00e9plicas das esculturas ocas feitas de metal barato s\u00e3o mantidas vivas tamb\u00e9m por anest\u00e9sicos: \u201cum amalgama que protege os objetos, como um presente bem guardado\u201d. Ouve-se o barulho do bombeamento, como insetos ou urubus que se alimentam da morte. Por uma a\u00e7\u00e3o externa demarcada \u2013 as etiquetas \u201cglicose\u201d e \u201cmorfina\u201d sobre os tubos de pl\u00e1stico que socorrem as r\u00e9plicas \u2013 parecem dizer: algu\u00e9m insiste que resistamos.<\/p>\n<\/div><hr  class=\"x-gap\" style=\"margin: 50px 0 0 0;\"><\/div><\/div><\/div><div id=\"x-section-6\" class=\"x-section\" style=\"margin: 0px; padding: 0px;  background-color: transparent;\" ><div id=\"\" class=\"x-container\" style=\"margin: 0px auto; padding: 0px; width: 100%;\" ><div  class=\"x-column x-sm x-1-1\" style=\"padding: 0px; \" ><img  class=\"x-img x-img-none\" style=\"width: 100%; padding: 0px 0px 0px 0px !important;\" src=\"https:\/\/revistacentro.org\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/Imagem3a.jpg\" ><\/div><\/div><\/div><div id=\"index\" class=\"x-section\" style=\"margin: 0px; padding: 0px 0px 45px;  background-color: #ffffff;\" ><div id=\"\" class=\"x-container max width\" style=\"margin: 0px auto; padding: 0px; \" ><div  class=\"x-column x-sm x-1-1\" style=\"padding: 0px; \" ><hr  class=\"x-gap\" style=\"margin: 60px 0 0 0;\"><div id=\"\" class=\"x-text none\" style=\"\" ><h3>For\u00e7a <\/h3>\n<\/div><\/div><\/div><div id=\"\" class=\"x-container max width\" style=\"margin: 0px auto; padding: 0px; \" ><div  class=\"x-column x-sm x-1-1\" style=\"padding: 0px; \" ><hr  class=\"x-gap\" style=\"margin: 20px 0 0 0;\"><div  class=\"x-columnize\" >\n<p>Em certo trecho de \u201cEnsaio sobre a d\u00e1diva\u201d, Mauss pergunta-se \u201cQue for\u00e7a existe na coisa dada que faz com que o donat\u00e1rio a retribua?\u201d (:188). Na troca-d\u00e1diva, o indiv\u00edduo renuncia a sua autonomia ao se dispor a dar e retribuir \u2013 o que Mauss chama de reciprocidade. O resultado material dessa obriga\u00e7\u00e3o \u00e9 a troca de objetos, por isso a for\u00e7a que obriga a reciprocidade est\u00e1 investida n\u00e3o nas pessoas, mas nas coisas, mat\u00e9ria resultante das rela\u00e7\u00f5es. A obriga\u00e7\u00e3o de retribuir \u00e9, portanto para Mauss, o resultado est\u00e9tico da troca.<\/p>\n<p>Nuno Ramos questiona nesses trabalhos sobre a origem dessa for\u00e7a do objeto est\u00e9tico. A rela\u00e7\u00e3o pret\u00e9rita entre eles \u00e9 trazida \u00e0 tona atrav\u00e9s dos v\u00eddeos, que reabrem a hist\u00f3ria da troca. Baliza coisas disparatadas, elevadas como totens; que despencam, mudam de estado, mas persistem. Em Richard Serra, a for\u00e7a do objeto est\u00e9tico est\u00e1 no peso do a\u00e7o das esculturas e do negro de seus desenhos, ambos abstratos; no caso de Nuno, est\u00e1 no objeto vulgar do mundo. As coisas solidificam nexos, estados e refer\u00eancias, poss\u00edveis apenas se conectadas pelo autor-artista \u2013 que precisa desses itens para produzir (ou retribuir) um outro, impregnado de est\u00e9tica.<\/p>\n<p>Com isso, aproxima-se do limite da materialidade do mundo: a partir do exerc\u00edcio de colocar em rela\u00e7\u00e3o objetos dispersos, produz um terceiro, uma for\u00e7a, decorrente de pares em perspectiva, os quais prescindem da exist\u00eancia de um terceiro \u2013 humano \u2013 para avaliar, categorizar e simbolizar essa rela\u00e7\u00e3o. Dois agentes n\u00e3o-humanos, ou meio-humanos, como \u00e9 o caso do pierr\u00f4, que, ao serem intercambiados, evidenciam o seu valor est\u00e9tico. Isso n\u00e3o passa pelo seu valor intr\u00ednseco, de troca nem de uso; \u00e9 a pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de est\u00e9tica como estabelecimento de rela\u00e7\u00f5es entre coisas materiais.<\/p>\n<p>Nuno percorreu a origem dos objetos est\u00e9ticos para alcan\u00e7ar o seu <em>mana <\/em>(termo melan\u00e9sio que, em poucas palavras, significa a for\u00e7a dada pela honra ou autoridade): colocar coisas diferentes em rela\u00e7\u00e3o. Nessa rede entre pessoas, artistas, linguagens, objetos e mat\u00e9rias se instaura o exerc\u00edcio da cria\u00e7\u00e3o de uma nova materialidade, que n\u00e3o se valida pelo seu significado para explicar o mundo, mas como pot\u00eancia e emerg\u00eancia da mat\u00e9ria pulsante. Um trabalho de arte germina de uma exacerba\u00e7\u00e3o da for\u00e7a interna dos objetos e seus v\u00ednculos \u2013 o contr\u00e1rio da vertente que observa o seu valor na sua rela\u00e7\u00e3o com discursos e tem\u00e1ticas do mundo<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup><sup>[3]<\/sup><\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Ao ler textos de antrop\u00f3logos, Nuno \u00e9 guiado pela intui\u00e7\u00e3o construtiva dos outros. N\u00e3o se trata de \u201cantropologizar\u201d a arte com meras afinidades de forma ou de assunto. Essa literatura n\u00e3o \u00e9 utilizada no texto, curatorial ou das refer\u00eancias art\u00edsticas \u2013 algo notado em exposi\u00e7\u00f5es recentes no Brasil e no exterior<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup><sup>[4]<\/sup><\/sup><\/a> \u2013 mas como disparador de outra maneira de entender o objeto est\u00e9tico. A partir da leitura sobre a forma dos outros organizarem o mundo e a troca, Nuno reconstr\u00f3i caminhos da arte ocidental, ao repensar a conex\u00e3o e separa\u00e7\u00e3o entre pessoas e coisas, inercia e inten\u00e7\u00e3o. A leitura de Mauss produziu um deslocamento real na maneira na qual Nuno compreende o poder dos objetos, de onde eles v\u00eam e como podem ser acionados. Revelando o pr\u00f3prio potencial atravessador da Antropologia, que ao falar sobre os outros, expande os nossos limites de possibilidades de exist\u00eancia.<\/p>\n<p>A exposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o coleciona modos de se fazer objetos, mas \u00e9 afetada por esses textos no plano da materialidade. Diante de certa discursividade contempor\u00e2nea, a arte de Nuno encontra na import\u00e2ncia das coisas para os outros a possibilidade de potencializar a arte dos modernos<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>. Responde \u00e0 suposta dicotomia entre entender o objeto como feixe de rela\u00e7\u00f5es e a possibilidade de consist\u00eancia pl\u00e1stica da arte, ao construir pe\u00e7as atrav\u00e9s do cruzamento entre pontos de vistas.<\/p>\n<p>Os objetos surgem como consequ\u00eancia da retribui\u00e7\u00e3o de uma d\u00e1diva entre coisas nome\u00e1veis, obriga\u00e7\u00e3o moral que aparece sob a forma pl\u00e1stica. A for\u00e7a do objeto est\u00e9tico \u00e9 indissoci\u00e1vel de sua posi\u00e7\u00e3o no tecido das rela\u00e7\u00f5es, redes e intencionalidades de obriga\u00e7\u00e3o rec\u00edproca. Mas \u00e9 tamb\u00e9m material, pois decorre da experi\u00eancia concreta entre pessoas e coisas. O objeto n\u00e3o \u00e9 aut\u00f4nomo, tampouco aleat\u00f3rio, mas o seu valor e for\u00e7a derivam apenas da hist\u00f3ria de sua troca. Apesar de preexistente, ganha no exerc\u00edcio est\u00e9tico a pot\u00eancia de alterar o estado do mundo. E, ao ganhar nome, inten\u00e7\u00e3o e for\u00e7a, reivindica para si a ag\u00eancia reservada no ocidente apenas aos humanos.<\/p>\n<\/div><hr  class=\"x-gap\" style=\"margin: 55px 0 0 0;\"><\/div><\/div><\/div><div id=\"index\" class=\"x-section\" style=\"margin: 0px; padding: 0px 0px 45px;  background-color: #ffffff;\" ><div id=\"\" class=\"x-container max width\" style=\"margin: 0px auto; padding: 0px; \" ><div  class=\"x-column x-sm x-1-1\" style=\"padding: 0px; \" ><div id=\"\" class=\"x-text none\" style=\"\" ><h6>Guilherme Giufrida,<\/h6>\n<p>antropol\u00f3go, mestre em antropologia social pelo Museu Nacional \u2013 UFRJ, foi assistente de curadoria da 10a Bienal de Arquitetura de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<\/div><hr  class=\"x-gap\" style=\"margin: 50px 0 0 0;\"><div id=\"\" class=\"x-text none\" style=\"\" ><p> Notas<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Marcel Mauss, \u201cEnsaio sobre a d\u00e1diva: forma e raza\u0303o da troca nas sociedades arcaicas\u201d. Em: <em>Sociologia e Antropologia<\/em>. S\u00e3o Paulo: CosacNaify, 2003 [1923-24].<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Mauss introduz em sua an\u00e1lise o ritual do <em>Potlach<\/em> como forma por excel\u00eancia de uma presta\u00e7\u00e3o total, isto \u00e9, obriga\u00e7\u00f5es m\u00fatuas entre coletividades atrav\u00e9s da troca. Troca-se n\u00e3o exclusivamente bens e riquezas, mas amabilidades, ritos, dan\u00e7as, festas. S\u00e3o presta\u00e7\u00f5es e contrapresta\u00e7\u00f5es que, muitas vezes, podem vir sob a forma de rivalidade e antagonismo. Por exemplo, \u00e9 muito comum no noroeste americano e na melan\u00e9sia ocorrer a destrui\u00e7\u00e3o suntu\u00e1ria das riquezas acumuladas para rivalizar com povos afins. Mauss identifica o revanchismo e as festan\u00e7as contempor\u00e2neas como poss\u00edveis sobreviv\u00eancias dessa destrui\u00e7\u00e3o dos excedentes, debatendo a premissa acumulativa da economia pol\u00edtica.<\/p>\n<p> <a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Nuno defende a possibilidade da arte separada dos discursos sobre ela. Irrita-se profundamente com o que chama de \u201cuma onda meio stalinista\u201d presente no discurso curatorial contempor\u00e2neo, ligada a chamada \u201carte pol\u00edtica\u201d. Seus defensores propagam, segundo Nuno, \u201cuma distin\u00e7\u00e3o radical entre quem acredita em valores como experi\u00eancia est\u00e9tica, e quem acha isso absurdo, que a obra de arte tem que se inserir no mundo e dar conta de quest\u00f5es, que seria o pessoal mais faminto por arte contempor\u00e2nea, para quem a arte tem de estar inserida e chama isso de pol\u00edtica\u201d. Para Nuno, \u201cum discurso de esquerda anos 40, que n\u00e3o tem ambiguidade nenhuma, qualquer ambiguidade \u00e9 mercado, est\u00e9tico. (&#8230;) A arte contempor\u00e2nea ficou muito institucional, patrocinada, os artistas passaram a aceitar temas. Disso pode sair uma coisa legal. Mas est\u00e1 muito assim, discursivo nesse sentido. O artista est\u00e1 preso em discursos. \u00c9 de uma imediatez pol\u00edtica tamanha, como se o mundo fosse transparente (&#8230;) Hoje a arte sofre mais com uma anteced\u00eancia discursiva do que com neg\u00f3cio de galeria. O que regula mais \u00e9 o neg\u00f3cio discursivo, mais do que o mercadol\u00f3gico. Discurso curatorial que antecipa o que os artistas fazem\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Uma exce\u00e7\u00e3o importante \u00e0 regra \u00e9 a exposi\u00e7\u00e3o <em>Animism<\/em> com curadoria Anselm Franke. Em \u201cAnimism: notes on an exhibition\u201d comenta sobre seu interesse nos efeitos do animismo, registrado nas etnografias dos povos da Am\u00e9rica do Sul, sobre a concep\u00e7\u00e3o moderna de objeto. A sua inten\u00e7\u00e3o foi de observar nos trabalhos de arte contempor\u00e2neas como alguns artistas pensam objetos como pessoas (\u201cperson like\u201d).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Apesar de sua constante leitura de textos antropol\u00f3gicos, inclusive dos autores contempor\u00e2neos, recebe com certa cr\u00edtica a condena\u00e7\u00e3o absoluta do moderno por parte de alguns. \u201cComo se n\u00e3o tivesse Walter Benjamin, como se n\u00e3o houvesse Samuel Becket, como se a arte moderna n\u00e3o fosse o esplendor que \u00e9, e extremamente negativa. O modernismo \u00e9 foda!\u201d.<\/p>\n<\/div><hr  class=\"x-gap\" style=\"margin: 60px 0 0 0;\"><\/div><\/div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":1,"featured_media":2131,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"template-blank-4.php","meta":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revistacentro.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1329"}],"collection":[{"href":"https:\/\/revistacentro.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/revistacentro.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacentro.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacentro.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1329"}],"version-history":[{"count":15,"href":"https:\/\/revistacentro.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1329\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2256,"href":"https:\/\/revistacentro.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1329\/revisions\/2256"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacentro.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2131"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revistacentro.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1329"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}