{"id":1318,"date":"2015-12-02T22:05:27","date_gmt":"2015-12-02T22:05:27","guid":{"rendered":"http:\/\/revistacentro.org\/?page_id=1318"},"modified":"2015-12-16T13:25:00","modified_gmt":"2015-12-16T13:25:00","slug":"caetano","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/revistacentro.org\/index.php\/caetano\/","title":{"rendered":"OUR CITIES WERE BUILT TO BE\u2026 &#8211; Uma entropologia brasileira: Caetano Veloso, L\u00e9vi-Strauss, Georges Bataille"},"content":{"rendered":"<div id=\"index\" class=\"x-section\" style=\"margin: 0px; padding: 0px 0px 45px;  background-color: #ffffff;\" ><div id=\"\" class=\"x-container max width\" style=\"margin: 0px auto; padding: 0px; \" ><div  class=\"x-column x-sm x-1-1\" style=\"padding: 0px; \" ><hr  class=\"x-gap\" style=\"margin: 55px 0 0 0;\"><div id=\"\" class=\"x-text none\" style=\"\" ><h6><span style=\"color: #808080;\"><span style=\"color: #000000;\">POR\u00a0<span style=\"color: #808080;\">MANOEL FRIQUES<\/span><\/span><\/span><\/h6>\n<\/div><hr  class=\"x-gap\" style=\"margin: 5px 0 0 0;\"><div id=\"\" class=\"x-text none\" style=\"\" ><h1><span style=\"color: #000000;\">OUR CITIES WERE BUILT TO BE&#8230;<\/span><\/h1>\n<\/div><div id=\"\" class=\"x-text none\" style=\"p {margin-top: 0em; margin-bottom: 0em;}\" ><h3><span style=\"color: #808080;\">Uma entropologia brasileira:<\/span><\/h3>\n<\/div><div id=\"\" class=\"x-text none\" style=\"p {margin-top: 0em; margin-bottom: 0em;}\" ><h3><span style=\"color: #808080;\">Caetano Veloso, L\u00e9vi-Strauss,<br \/>\nGeorges Bataille<\/span<\/h3>\n<\/div><hr  class=\"x-gap\" style=\"margin: 55px 0 0 0;\"><\/div><\/div><\/div><div id=\"x-section-2\" class=\"x-section\" style=\"margin: 0px; padding: 0px 0px 45px;  background-color: #ffffff;\" ><div id=\"\" class=\"x-container max width\" style=\"margin: 0px auto; padding: 0px; \" ><div  class=\"x-column x-sm x-1-1\" style=\"padding: 0px 0% 0px 0; \" ><div  class=\"x-columnize\" >\n<p>O antrop\u00f3logo Claude L\u00e9vi-Strauss detestou a Ba\u00eda de Guanabara, mas em <em>Tristes tr\u00f3picos<\/em> mostrou as faces de um Brasil at\u00e9 hoje desconhecido. Paralelamente \u00e0 descri\u00e7\u00e3o das formas sociais ind\u00edgenas, sua leitura sobre o pa\u00eds revela o radical paradoxo brasileiro sintetizado em \u201cAqui tudo parece que era ainda constru\u00e7\u00e3o e j\u00e1 \u00e9 ru\u00edna\u201d, transformada em verso por Caetano Veloso.<\/p>\n<\/p>\n<p>Em certo trecho de <em>Tristes tr\u00f3picos<\/em>, L\u00e9vi-Strauss condensa \u2013 com a precis\u00e3o que lhe \u00e9 carater\u00edstica \u2013 o mist\u00e9rio brasileiro: \u201cO Brasil se transformara mais do que se desenvolvera\u201d. Em uma \u00fanica frase, o antrop\u00f3logo franc\u00eas exp\u00f5e as contradi\u00e7\u00f5es tropicais, \u00e0s quais tanto fascinam quanto preocupam o compositor brasileiro.<\/p>\n<\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil ignorar, de imediato, os fortes resqu\u00edcios positivistas dessa frase, ressoando a\u00ed uma caduca aproxima\u00e7\u00e3o novecentista entre cultura e civiliza\u00e7\u00e3o, ambas voltadas inequivocamente ao progresso. Mas n\u00e3o se trata de acusar L\u00e9vi-Strauss, dedo em riste a sua face: positivista! Nem mesmo de desconsiderar o seu fasc\u00ednio pela ci\u00eancia (o pensamento cient\u00edfico), a ponto de v\u00ea-la em qualquer canto (o pensamento selvagem).<\/p>\n<\/p>\n<p>O que \u00e9 &#8220;transformar&#8221; se n\u00e3o &#8220;desenvolver&#8221;? Os dois termos n\u00e3o ocupam o mesmo paradigma? N\u00e3o seriam sin\u00f4nimos? O interessante aqui \u00e9 menos o ajuizamento cr\u00edtico da descri\u00e7\u00e3o etnogr\u00e1fica do que a capacidade de L\u00e9vi-Strauss em abrir um abismo diferencial entre o desenvolvimento e a transforma\u00e7\u00e3o. Ao deslocarmos o foco das especula\u00e7\u00f5es conceituais para os problemas sociopol\u00edticos em que estamos mergulhados, constatamos que \u2013 com toda a melancolia produzida pela crise da ci\u00eancia europeia \u2013 L\u00e9vi-Strauss tem <em>raz\u00e3o<\/em>.<\/p>\n<\/p>\n<p><em>Desenvolver<\/em> parece carregar a possibilidade de um processo sistem\u00e1tico de transforma\u00e7\u00e3o; um processo planificado. Se o Brasil se transformou e n\u00e3o se desenvolveu, as transforma\u00e7\u00f5es por aqui n\u00e3o ocorrem de modo processual, havendo em nossa paisagem a justaposi\u00e7\u00e3o de diferentes temporalidades. Esta aus\u00eancia de media\u00e7\u00e3o efetuada pelo processo planificado \u2014 o <em>anti-hegelianismo <\/em>tropical\u00a0\u2014 parece aproximar-se tanto da <em>imagem dial\u00e9tica<\/em> definida por Walter Benjamin\u00a0<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> quanto do princ\u00edpio surrealista de <em>justaposi\u00e7\u00e3o<\/em><a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>.<\/p>\n<\/p>\n<p>Essa justaposi\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica aparece em duas letras de Caetano Veloso, resultados de um di\u00e1logo com o pensamento de L\u00e9vi-Strauss. <em>Fora da Ordem<\/em> \u00e9 um retrato cir\u00fargico de uma paisagem cuja intensidade extrapola a composi\u00e7\u00e3o domesticada de um cart\u00e3o-postal. Nesta fenomenal can\u00e7\u00e3o do \u00e1lbum <em>Circulad\u00f4<\/em>, pipocam aqui e ali imagens dial\u00e9ticas de uma transforma\u00e7\u00e3o sem desenvolvimento nem precisa orienta\u00e7\u00e3o: a ru\u00edna de uma escola em constru\u00e7\u00e3o; o asfalto, a ponte, o viaduto ganindo pra lua: nada continua. Em Sampa, mal se v\u00ea quem sobe ou desce a rampa.<\/p>\n<\/div><hr  class=\"x-gap\" style=\"margin: 55px 0 0 0;\"><\/div><\/div><\/div><div id=\"x-section-3\" class=\"x-section\" style=\"margin: 0px; padding: 0px;  background-color: #ffffff;\" ><div id=\"\" class=\"x-container max width\" style=\"margin: 0px auto; padding: 0px; \" ><div  class=\"x-column x-sm x-1-1\" style=\"padding: 0px; \" ><div  class=\"x-video player hide-controls youtube\" data-x-element-mejs=\"{&quot;poster&quot;:&quot;&quot;}\" style=\"width: 100;\" data-x-video-options=''><div class=\"x-video-inner video\/youtube \"><video class=\"x-mejs has-stack-styles advanced-controls\" preload=\"auto\"><source src=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=dd6Tp_Sb1Xg\" type=\"video\/youtube\"><\/video><\/div><\/div><hr  class=\"x-hr\" ><\/div><\/div><\/div><div id=\"x-section-4\" class=\"x-section\" style=\"margin: 0px; padding: 0px 0px 45px;  background-color: #ffffff;\" ><div id=\"\" class=\"x-container max width\" style=\"margin: 0px auto; padding: 0px; \" ><div  class=\"x-column x-sm x-1-1\" style=\"padding: 0px 0% 0px 0; \" ><hr  class=\"x-gap\" style=\"margin: 20px 0 0 0;\"><div  class=\"x-columnize\" >\n<p>Neste versos, Caetano descreve um embaralhamento end\u00eamico \u00e0 cena brasileira onde o f\u00f3ssil \u00e9 g\u00eameo do feto. N\u00e3o se trata aqui de uma substitui\u00e7\u00e3o do velho pelo novo, como ocorre com nossos dispositivos tecnol\u00f3gicos guiados pela obsolesc\u00eancia programada. A descri\u00e7\u00e3o de Caetano revela um presente abism\u00e1tico, onde a promessa do que vir\u00e1 (a constru\u00e7\u00e3o) \u00e9 ela mesma revestida de destrui\u00e7\u00e3o. O presente \u00e9 um hiato surrealista que justap\u00f5e realidades distintas e que se esquiva a ser canalizado em \u00fanica dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O sentido de construir para destruir surge tamb\u00e9m em outra can\u00e7\u00e3o do baiano, &#8220;Maria Beth\u00e2nia&#8221;: Everybody knows that our cities were built to be destroyed [Todos sabem que nossas cidades foram constru\u00eddas para serem destru\u00eddas]. Seria essa a tal destrui\u00e7\u00e3o criativa de Schumpeter, transformada em lei neoliberal do funcionamento capitalista\u00a0<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>? N\u00e3o parece ser o caso, at\u00e9 mesmo porque o desejo do narrador de Maria Beth\u00e2nia \u00e9 um s\u00f3: receber a carta da irm\u00e3, Beth\u00e2nia, onde seria poss\u00edvel constatar que as coisas est\u00e3o melhorando [I wish to know things are getting better]. Trata-se de um desejo [I wish]: um desejo de processo, de desenvolvimento; como o ger\u00fandio [getting] parece indicar. Nesta carta-can\u00e7\u00e3o, o narrador encontra-se exilado em uma cidade do &#8220;Velho Mundo&#8221;, terra de processos hist\u00f3ricos pautados pela media\u00e7\u00e3o. Sua carta se dirige, todavia, a uma cidade do &#8220;Novo Mundo&#8221; marcada pela doen\u00e7a cr\u00f4nica descrita por L\u00e9vi-Strauss: &#8220;eternamente jovem, nunca saud\u00e1vel&#8221;\u00a0<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>. Desejar n\u00e3o \u00e9 constatar.<\/p>\n<p>Sem d\u00favida, as duas can\u00e7\u00f5es oferecem retratos da aproxima\u00e7\u00e3o entre constru\u00e7\u00e3o e destrui\u00e7\u00e3o. Impressiona ainda mais exatamente a justaposi\u00e7\u00e3o entre uma descren\u00e7a e uma valoriza\u00e7\u00e3o da for\u00e7a transgressiva, disruptiva. Em &#8220;Maria Beth\u00e2nia&#8221;, algo curioso ocorre. Ao final de uma can\u00e7\u00e3o dedicada \u00e0 irm\u00e3, Caetano diz: But I love her face cause there&#8217;s nothing to do with all that I said. O pr\u00f3prio compositor desconstr\u00f3i aquilo que construiu: a face de Maria Beth\u00e2nia nada teria a ver com tudo dito na can\u00e7\u00e3o com o seu nome.<\/p>\n<p>A segunda metade de &#8220;Fora da ordem&#8221; descreve alguma coisa de nossa transa que \u00e9 quase luz forte demais, parece p\u00f4r tudo \u00e0 prova, parece fogo, parece paz. E o show de Jorge Benjor \u00e9 muito, \u00e9 grande, \u00e9 total. Aqui n\u00e3o h\u00e1 uma reprova\u00e7\u00e3o da indetermina\u00e7\u00e3o, mas, surpreendentemente, a apropria\u00e7\u00e3o po\u00e9tica de seu princ\u00edpio. Neste \u00faltimo caso, o desejo irrompe a ordem: \u00e9 o poder destruidor da transa (de uma luz forte que pode cegar, do fogo a transubstanciar as coisas) descrita por Caetano.<\/p>\n<\/div><hr  class=\"x-gap\" style=\"margin: 55px 0 0 0;\"><\/div><\/div><\/div><div id=\"x-section-5\" class=\"x-section\" style=\"margin: 0px; padding: 0px;  background-color: transparent;\" ><div id=\"\" class=\"x-container max width\" style=\"margin: 0px auto; padding: 0px; \" ><div  class=\"x-column x-sm x-1-1\" style=\"padding: 0px; \" ><div  class=\"x-video player hide-controls youtube\" data-x-element-mejs=\"{&quot;poster&quot;:&quot;&quot;}\" style=\"width: 100;\" data-x-video-options=''><div class=\"x-video-inner video\/youtube \"><video class=\"x-mejs has-stack-styles advanced-controls\" preload=\"auto\"><source src=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=BWmdRdzJbOM\" type=\"video\/youtube\"><\/video><\/div><\/div><hr  class=\"x-hr\" ><\/div><\/div><\/div><div id=\"x-section-6\" class=\"x-section\" style=\"margin: 0px; padding: 0px 0px 45px;  background-color: #ffffff;\" ><div id=\"\" class=\"x-container max width\" style=\"margin: 0px auto; padding: 0px; \" ><div  class=\"x-column x-sm x-1-1\" style=\"padding: 0px 0% 0px 0; \" ><hr  class=\"x-gap\" style=\"margin: 35px 0 0 0;\"><div  class=\"x-columnize\" >\n<p>Esse movimento intenso de extrapola\u00e7\u00e3o da ordem efetuado pelo desejo permitiria tecer ainda uma conex\u00e3o de Caetano ao surrealismo, n\u00e3o tanto por meio da perspectiva do seu legislador principal \u2014 Andr\u00e9 Breton \u2014 mas justamente pela vis\u00e3o desenvolvida por seu inimigo interno \u2014 Georges Bataille\u00a0<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>. E, de novo, podemos reencontrar a etnografia, dado o interesse de Bataille por povos distantes, espacial e temporalmente, de Paris.<\/p>\n<p>Em um de seus textos mais conhecidos, Bataille foca, como um arque\u00f3logo ou etn\u00f3grafo, uma &#8220;Am\u00e9rica desaparecida&#8221;, descrevendo a rela\u00e7\u00e3o intr\u00ednseca entre crueldade e religi\u00e3o em rituais sacrificiais encontrados na civiliza\u00e7\u00e3o Asteca, os quais re\u00fanem humor negro, fervor religioso e padres canibais [o verso de Caetano &#8220;\u00e9 muito, \u00e9 grande, \u00e9 total&#8221; ecoa aqui]. O autor se interessaria, assim, por rituais antropof\u00e1gicos encontrados em civiliza\u00e7\u00f5es pr\u00e9-colombianas, neles inspirando-se para formular uma proposta surrealista fundada n\u00e3o tanto na idealiza\u00e7\u00e3o do inconsciente (como Breton), mas no poder destruidor do desejo.<\/p>\n<p>Bataille se volta para um erotismo \u2014 ret\u00f3rico e tem\u00e1tico \u2014 transgressor de fronteiras estabelecidas pela ordem (como em <em>A hist\u00f3ria do olho<\/em>, onde a devassid\u00e3o dos personagens ecoa na concatena\u00e7\u00e3o sem\u00e2ntica entre ovo, olho, test\u00edculos e sol); e para rituais que entrela\u00e7am autoridade e destrui\u00e7\u00e3o (como o ritual <em>potlatch<\/em> \u2013 um fato-social-total, no qual a soberania do chefe tribal seria proporcional a sua capacidade em dar ao inimigo tudo que possui). Esse pensamento se desvirtua do racionalismo, valorizando o poder libertador da destrui\u00e7\u00e3o\u00a0<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>.<\/p>\n<p>&#8220;Fora da Ordem&#8221; e &#8220;Maria Beth\u00e2nia&#8221; partem da falta de continuidade caracter\u00edstica da hist\u00f3ria brasileira. Devido a isto, as duas can\u00e7\u00f5es compartilhariam com <em>Tristes tr\u00f3picos<\/em> um olhar sobre nossos paradoxos. No livro de L\u00e9vi-Strauss, a antropologia \u00e9 redefinida como entropologia \u2014 a ci\u00eancia da entropia humana \u2014 sugerindo que o eminente desaparecimento do objeto antropol\u00f3gico estaria absolutamente atrelado ao esfor\u00e7o de entendimento de seus ind\u00edcios e rastros. O etn\u00f3grafo precisa ent\u00e3o, a todo momento, lidar com um irredut\u00edvel mal-estar ao realizar uma arqueologia de um tempo presente em vias de extin\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>As can\u00e7\u00f5es de Caetano v\u00e3o al\u00e9m desta constata\u00e7\u00e3o melanc\u00f3lica, apropriando-se poeticamente do princ\u00edpio da contradi\u00e7\u00e3o: \u00e9 aqui que elas aproximam-se da etnografia surrealista em torno de Bataille. Mas, se, conceitual e poeticamente, a destrui\u00e7\u00e3o e a transgress\u00e3o s\u00e3o deveras tentadoras, de qual modo poder-se-ia justapor o poder disruptivo encontrado em Caetano (e tamb\u00e9m em Bataille) \u00e0 realidade crua e nua brasileira? Dito de outro modo: h\u00e1 um salto po\u00e9tico em Caetano sob o signo da antropofagia enquanto met\u00e1fora cultural. Seria poss\u00edvel realizar um contra-salto, equacionando chacinas, desastres ambientais, descontinuidades e corrup\u00e7\u00e3o a uma pr\u00e1tica surrealista-antropof\u00e1gica?<\/p>\n<p>O sol se p\u00f4s<\/p>\n<p>Depois nasceu<\/p>\n<p>E nada aconteceu<\/p>\n<\/div><hr  class=\"x-gap\" style=\"margin: 60px 0 0 0;\"><div id=\"\" class=\"x-text none\" style=\"\" ><h6>Manoel Silvestre Friques,<\/p>\n<\/h6>\n<p>professor assistente na Universidade de Engenharia da UNIRIO. Trabalha em projetos culturais como curador e dramaturgo.<\/p>\n<\/div><hr  class=\"x-gap\" style=\"margin: 60px 0 0 0;\"><hr  class=\"x-hr\" ><div id=\"\" class=\"x-text none\" style=\"\" ><p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a>\u00a0Grosso modo, a dial\u00e9tica hegeliana pauta-se por um processo, um desenvolvimento mediado. O conceito de Benjamin descartaria precisamente a media\u00e7\u00e3o, propondo uma imobilidade dial\u00e9tica. A media\u00e7\u00e3o associada ao pensamento dial\u00e9tico seria um dos fatores que distinguiriam, para Agamben, os pensamentos de Benjamin e de Adorno. Para uma discuss\u00e3o bastante elucidativa, ver O Pr\u00edncipe e o Sapo: o problema do m\u00e9todo em Adorno e Benjamin, cap\u00edtulo de Inf\u00e2ncia e Hist\u00f3ria, de Giorgio Agamben.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a>\u00a0O encontro, ao acaso e em uma mesa de disseca\u00e7\u00e3o, entre a m\u00e1quina de costura e o guarda-chuva, seria uma chave metaf\u00f3rica fundamental aos surrealistas retirada de Lautr\u00e9amont. Susan Sontag, em &#8220;Happenings: an art of radical juxtaposition&#8221;, iria ampliar o escopo desta imagem para al\u00e9m do surrealismo, investigando os Happenings a partir do princ\u00edpio de justaposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> A destrui\u00e7\u00e3o criativa \u00e9 um conceito utilizado para justificar &#8220;naturalmente&#8221; a competi\u00e7\u00e3o neoliberal, sendo o impulso fundamental ao capitalismo. Sob esta perspectiva, a inova\u00e7\u00e3o que impele ao desenvolvimento econ\u00f4mico substitui, destruindo, a ordem precedente. Tal abordagem, muito comum nos debates de empreendedorismo, opera uma redu\u00e7\u00e3o no pensamento de Joseph Schumpeter.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Do trecho de <em>Tristes tr\u00f3picos<\/em> (Claude L\u00e9vi-Strauss. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2001, 4\u00aa reimpress\u00e3o, pp.91-92; tradu\u00e7\u00e3o Rosa Freire D\u2019Aguiar): \u201cMas essas f\u00e9rias fora do tempo a que convida o g\u00eanero monumental, essa vida sem idade que caracteriza as mais belas cidades, transformadas em objeto de contempla\u00e7\u00e3o e de reflex\u00e3o, e n\u00e3o mais em simples instrumentos a fun\u00e7\u00e3o urbana \u2013 as cidades americanas nunca chegam a tal. Nas cidades do Novo Mundo, seja Nova York, Chicago ou S\u00e3o Paulo, que muitas vezes lhe foi comparada, o que me impressiona n\u00e3o \u00e9 a falta de vest\u00edgios: essa aus\u00eancia \u00e9 um elemento de seu significado. Ao contr\u00e1rio desses turistas europeus que torcem o nariz porque n\u00e3o podem acrescentar a seus trof\u00e9us de ca\u00e7a mais uma catedral do s\u00e9culo XIII, alegro-me em me adaptar a um sistema sem dimens\u00e3o temporal, para interpretar uma forma diferente de civiliza\u00e7\u00e3o. Mas \u00e9 no erro contr\u00e1rio que caio: j\u00e1 que as cidades s\u00e3o novas e tiram dessa novidade sua ess\u00eancia e justifica\u00e7\u00e3o, custo a perdo\u00e1-las por n\u00e3o continuarem a s\u00ea-lo. Para as cidades europ\u00e9ias, a passagem dos s\u00e9culos constitui uma promo\u00e7\u00e3o; para as americanas, a dos anos \u00e9 uma decad\u00eancia. Pois n\u00e3o s\u00e3o apenas constru\u00eddas recentemente; s\u00e3o constru\u00eddas para se renovarem com a mesma rapidez com que foram erguidas, quer dizer, mal. No momento em que surgem, os novos bairros nem sequer s\u00e3o elementos urbanos: s\u00e3o brilhantes demais, novos demais, alegres demais para tanto. Mais se pensaria numa feira, numa exposi\u00e7\u00e3o internacional constru\u00edda para poucos meses. Ap\u00f3s esse prazo a festa termina e esses grandes bibel\u00f4s fenecem:as fachadas descascam; a chuva e a fuligem tra\u00e7am seus sulcos, o estilo sai de moda, o ordenamento primitivo desaparece sob as demoli\u00e7\u00f5es exigidas, ao lado, por outra impaci\u00eancia. N\u00e3o s\u00e3o cidades novas contrastando com cidades velhas; mas cidades com ciclo de evolu\u00e7\u00e3o curt\u00edssimo, comparadas com cidades de ciclo lento. Certas cidades da Europa adormecem suavemente na morte; as do Novo Mundo vivem febrilmente uma doen\u00e7a cr\u00f4nica; eternamente jovens, nunca saud\u00e1veis, por\u00e9m.\u201d<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Bataille se auto-definiria como inimigo interno do surrealismo. Atualmente, s\u00e3o bem conhecidas as disputas e os conflitos inerentes do surrealismo, resultantes, em parte, do poder de Andr\u00e9 Breton em incluir e expulsar quem quisesse do n\u00facleo principal do movimento. Com o lan\u00e7amento da revista <em>DOCUMENTS<\/em>, forma-se, em torno de Georges Bataille, um grupo dos surrealistas dissidentes. De modo esquem\u00e1tico, pode-se dizer que a etnografia e a arqueologia seriam essenciais ao surrealismo de Bataille assim como a psican\u00e1lise fundamentaria o surrealismo de Breton.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> E, se \u00e9 poss\u00edvel justapor o interesse etnogr\u00e1fico pelos surrealistas dissidentes \u00e0s imagens dial\u00e9ticas que povoam a nossa paisagem urbana, pode-se ainda lan\u00e7ar-se a seguinte indaga\u00e7\u00e3o: o informe de Bataille, enquanto categoria que escapa \u00e0 classifica\u00e7\u00e3o, n\u00e3o poderia ser justaposto \u00e0 <em>Forma dif\u00edcil<\/em> de Rodrigo Naves, fundada em uma conex\u00e3o entre a fragilidade institucional das artes visuais brasileiras e a timidez formal de sua produ\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<\/div><\/div><\/div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":1,"featured_media":1552,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"template-blank-4.php","meta":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revistacentro.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1318"}],"collection":[{"href":"https:\/\/revistacentro.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/revistacentro.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacentro.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacentro.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1318"}],"version-history":[{"count":38,"href":"https:\/\/revistacentro.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1318\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2244,"href":"https:\/\/revistacentro.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1318\/revisions\/2244"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacentro.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1552"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revistacentro.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1318"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}